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O NOSSO PROPÓSITO

O Capitão Haddock da banda desenhada do Tintin é uma boa caricatura de como se atribui a relação entre o mar e as garrafas ao alcoolismo dos marinheiros. No entanto a relação que mais nos interessa é a de que os marinheiros tinham com as garrafas já vazias. Tal como com o álcool, a atenção requerida pela introdução de modelos de veleiros no interior de garrafas -pelos seus gargalos- fazia-os evadirem-se da sua dura realidade. Ao contrário das fantasias de Baco o resultado desta outra relação era uma fantasia perdurável com um significado quase bíblico, o do buraco da agulha e do camelo.

O Mar das Garrafas será um espaço de divulgação de uma arte que, mais do que uma evasão, constitui um meio de trabalhar a persistência. Aqui apresentarei trabalhos já realizados, outros a realizar, trabalhos de outros, os resultados da minha pesquisa contínua sobre a história e as mútiplas envolvências desta arte, especialmente a das embarcações tradicionais.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Madalena do Pico

A Vila da Madalena é a porta de entrada para a Ilha do Pico e foi na sua paisagem que me inspirei para minha primeira garrafa com um veleiro, realizada em 1985 quando vivia na Vila de Nordeste, Ilha de S. Miguel. A garrafa é de Gordon's, depois de ter sido adquirida no Peter Café Sport  da Horta, Faial, conhecido entre outras coisas pelo seu gin.

domingo, 27 de setembro de 2009

A nova muleta para a garrafa da Ana

Na primeira fotografia pode ver-se a Muleta que estou a construir para substituir a que estava na garrafa da Ana (segunda fotografia). O casco oco, com cavername é feito em 3 partes (para poder entrar no gargalo) e está à escala.





sábado, 26 de setembro de 2009

Homenagem ao Dr. Manuel Leitão


Eis o livro que esperava, agora posso continuar a construir o modelo para a garrafa da Ana. O livro é bilingue (Português e Inglês) e é uma verdadeira bíblia para quem gosta de embarcações tradicionais, custa 10 Euros no Ecomuseu do Seixal .

Hoje soube que o Dr. Manuel Leitão já não está fisicamente entre nós. Lembro-me da Regata da Moita em que velejámos na "Canastrinha" e recordo a minúcia e o método com que analisava as diferentes partes das embarcações. O livro "A Muleta" terá sido porventura o seu derradeiro contributo, em co-autoria, para a história das embarcações do Tejo.  

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

A Muleta do Tejo da Ana

Em 1986 realizei o meu primeiro modelo de uma das embarcações que mais me atrai, a incomparável Muleta do Seixal.
Embora convicto de que era um dos melhores mares que tinha pintado, com o tempo fui achando que esta garrafa merecia um modelo mais aprimorado. Hoje, passados 11 anos, já tenho um novo casco realizado à escala e preparado para ser completado com o aparelho. A Ana, no entanto, continua sem  me perdoar o ter destruído este modelo que lhe oferecera para fazer um melhor!

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Perfil de um modelista náutico (sem garrafas), Lenine Rodrigues (por Anabela Oliveira)

É homem claro, directo, de sorriso tímido e simples. Fotografias não são muito com ele. Trabalho sim. Só aí se solta e se esquece da máquina fotográfica. Maquetista Naval, Lenine Rodrigues é um homem de artes. Usa o cinzel como usa o formão, o berbequim, como o pincel. O que for não importa. É arte, ele faz.
A sua relação com o Tejo vem desde que nasceu, numa travessa virada para o rio, há 62 anos, entre o casario do Barreiro. Desde cedo se habituou a ver passar fragatas, faluas, bateiras e catraios e desde pequeno se apaixonou por barcos à vela. “Ainda hoje, sou incapaz de ver passar um barco à vela e não parar, para o observar”, afirma Lenine Rodrigues, maquetista naval. Desde a madeira a metais nobres como a prata, este homem dedica-se a fazer réplicas dos barcos que sempre o encantaram. Teimosia, é uma das palavras que mais utiliza para definir a forma como consegue a perfeição dos seus trabalhos. Nós substituímo-la por persistência deste homem que fez o seu primeiro barco à vela ainda miúdo, de cascalheira, a casca castanha do pinheiro bravo, raspado sobre o cimento até lhe dar a forma que gostou de ver. Um pau e uma vela de papel, e corre a experimentar pô-lo a navegar na bacia de lavar as mãos. Foi com tristeza que viu o barquito adornar. Hoje sabe o motivo, que na altura não sabia: o mastro era excessivamente grande para o tamanho do barco. E foram precisamente os barcos à vela que se dedicou a reproduzir, à escala exacta, escolhida por si ou pelo cliente.

Entre França e Portugal

Em 1957 o pai imigra para França. Dois anos depois Lenine segue o mesmo caminho com a mãe. Se em Portugal já se tinha tornado aprendiz de carpinteiro, em França aprende o ofício de torneiro mecânico, trabalhando com “os três tornos: o vertical, o paralelo e o suspenso”. Chegou ao mais alto nível deste ofício, “era requisitado para trabalhar na França toda, inclusive na aeronáutica”. Entretanto, ao mesmo tempo, frequentava a escola ABC de Paris, uma “escola de artistas plásticos: desenho, pintura, desenho publicitário, tudo o que dizia respeito à arte”. Para onde ia levava o papel e os lápis. Fez o curso pelo amor que desde miúdo sentia pelas artes plásticas mas também porque lhe prometeram emprego no fim do estudo. A falência da firma que o empregaria veio a impossibilitar esse sonho e Lenine manteve o hobby a par com o seu ofício. Por motivos particulares, Lenine Rodrigues regressa a Portugal em 1976. Continua a ser torneiro mecânico e não tem dificuldades em obter trabalho mas a doença surge-lhe pela frente e viu-se impossibilitado de trabalhar durante 2 meses. Um pneumotorax impedia-o de fazer força. Disse para a mulher “é agora ou nunca”, referindo-se ao que até aí havia sido o seu hobby.

De auto didacta a maquetista naval

No início era um ilustre desconhecido que trabalhava para si mesmo. A oficina era dividida em duas partes, uma onde trabalhava como serralheiro, a outra onde dava azo à sua veia artística. Pintura, gravura, escultura, maquetismo, tudo lhe servia para se entreter. Um dia o seu hobby foi descoberto por dois amigos, um deles jornalista. Na semana seguinte um jornal do Barreiro falava de Lenine Rodrigues e do seu trabalho. Surgiram as primeiras encomendas para o núcleo naval do Museu de Almada e não parou mais.A tal persistência e perfeição no que faz levam-no a não descurar qualquer pormenor e até os que não se vêem depois de acabada a peça, estão lá. Quando lhe perguntam porquê, se no fim não são visíveis, ele responde “mas vejo eu!”. É assim que cada barco tem beliches e toda a minúcia que lhes compete e cada modelo que faz é construído no tipo de madeira utilizado no original.

Um desafio vencido

Em 1998 Lenine Rodrigues aceita o desafio que lhe é colocado pela Joalharia Torres: fazer 13 miniaturas em prata. Trabalhar em prata é totalmente diferente de trabalhar madeira. Habituado a fazer os seus modelos em cavername, tal qual eles são construídos em tamanho natural e também através da prática que na gíria se chama o “pão com manteiga”, técnica que não perde valor, a prata obriga-o a martelar e moldar sobre um cepo: acerta de um lado, foge do outro. Mas “venci o desafio”, diz. As treze peças foram entregues e posteriormente expostas no Centro Comercial Colombo.
Afinal, o que é preciso para se ser um bom maquetista naval? “Para já, tem de se gostar daquilo que se faz. Tem de saber minimamente ler desenho naval e depois é cumprir à regra tudo aquilo que vem nos desenhos”. Dito assim parece simples, ao contrário de quando se olha para uma peça ainda em construção. Outra coisa de que Lenine Rodrigues sente necessidade é de se informar sobre a história do barco que está a construir. Autodidacta, os conhecimentos de carpintaria e de torneiro mecânico foram-lhe sempre úteis. “Para se poder ser torneiro mecânico temos de saber ler desenho, embora seja desenho mecânico. Quando se sabe é fácil compreender o desenho naval”, diz rematando: “e depois fui-me informando”.
Pintura, escultura, modelos em prata ou madeira, ourivesaria, gravação em básculas de espingardas, a tudo ele se dedica, desde que possa dar azo à sua imaginação e à sua habilidade manual.
Modesto, o facto de ter peças espalhadas por vários locais públicos e colecções particulares, entre as quais se contam a do rei Juan Carlos de Espanha, em nada lhe mudou a maneira de ser. “Não posso dizer que não sinto orgulho, mas continuo a ser a mesma pessoa que era quando me iniciei”.
 

 
Agradecemos a Anabela Oliveira a autorização para a reprodução do seu texto de:



Os barcos de prata de Lenine Rodrigues:

http://www.artbarreiro.com/artbarreiro1/lenine_files/2005/album/OsBarcosdoLenine/index.html




O cutter piloto de Bristol

O meu colega e amigo Manuel viu o meu blog e disse-me que devia colocar um post em que mostrasse como se introduzia um veleiro pelo gargalo de uma garrafa. O filme que se segue destina-se a satisfazer o "incrédulo".


O  "Marguerite", cutter (veleiro de um mastro) piloto do Canal de Bristol, foi realizado em 1992. Esta miniatura, a primeira que fiz sem pintura,  foi realizada à escala, o casco é oco e tem cavername.

sábado, 19 de setembro de 2009

Muleta do Seixal


A muleta é uma das embarcações portuguesas de pesca mais interessantes. Já extinta, era construída na área do Seixal deslocava-se para o oceano junto a Cascais para pescar. A pesca era feita com uma rede de arrasto paralela ao casco, pois a muleta arrastava-a navegando de flanco. Para o poder fazer existiam velas à popa e à ré e tinha um casco côncavo que diminuía resistência à água. Para ter estabilidade usava esparrelas.


 
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sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Celebre as Jornadas Europeias de Património com o Ecomuseu Municipal do Seixal

No Núcleo Naval de Arrentela (Seixal), dia 25 de Setembro, às 18.00 horas, participe na apresentação pública do livro A Muleta (Muleta é o nome da embarcação na garrafa do cabeçalho deste blog), uma edição conjunta com o Museu de Marinha, da autoria de Manuel Leitão, Ferdinando Oliveira Simões e António Marques da Silva (estes senhores são três grandes expoentes da arquitectura e modelismo naval tradicional português). A sessão constitui simultaneamente uma forma de assinalarmos localmente o Dia Mundial do Mar .

O livro A Muleta constitui um significativo contributo para a documentação, o estudo descritivo e a caracterização dos aspectos construtivos estruturais de uma embarcação que possui um enorme valor simbólico para as comunidades ribeirinhas do estuário do Tejo.

Não são miniaturas para garrafas, mas deve visitar-se com urgência, é muito inspirador!


quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Novo monumento ao mar


quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A garrafa ex-voto de Buarcos

Um ex-voto é uma representação de algo que se considera ter sido alvo de um milagre salvador. O seu intuito é o do agradecimento à divindade pela graça recebida sendo colocado em capelas e igrejas. A forma do seu registo pode ser muito diversa,  pintura, escultura, fotografia, etc. e em Portugal abundam motivos relacionados com a doença, a guerra -sobretudo a colonial- e também com os naufrágios.

De facto a vida do mar foi (e ainda é) muito propensa à produção de ex-votos e a exposição realizada no Museu da Marinha de Maio a Setembro de 1983, intitulada "Primeira Exposição Nacional de Painéis Votivos do rio, do Mar e do Além-Mar", apresentou uma grande série de paineis pictóricos com embarcações sujeitas a situações de desastre, mas que, terão sido salvas por milagres.

Interrogando-me se uma embarcação no interior de uma garrafa não poderia ser também um registo votivo, acabei por ter uma resposta afirmativa através de uma série de visitas a capelas marítimas. Na Capela da N.ª Sr.ª da Encarnação em Buarcos, Portugal, o meu olhar descortinou quase imediatamente uma garrafa com um veleiro, provando que este tipo de arte também tinha um carácter votivo. Afinal que melhor modo de agradecer um milagre salvífico do que através daquilo que aos olhos dos outros é também uma forma de realizar o impossível?




Como se pode ver no filme é uma garrafa muito invulgar porque o veleiro surge solto no interior da garrafa sem qualquer suporte e com as obras vivas (a parte do casco que fica submersa). O grau de dificuldade deste tipo de trabalho é bastante superior porque a acção sobre a miniatura pode movê-la, impedindo a eficácia do contacto das duas partes da embarcação (obras mortas e obras vivas) e a elevação dos mastros.

A datação aproximada da embarcação é realizada pela bandeira -Monárquica Constitucional- e pelo tipo de casco, típico da segunda metade do séc. XIX e princípio do Séc. XX e, assim, pode dizer-se que é uma peça centenária uma vez que a República fará 100 anos em Outubro de 2010.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O Beagle de Charles Darwin

O Beagle foi a embarcação em que Charles Darwin realizou a viagem que o levaria à "Origem das Espécies". Construi-o para o oferecer ao meu pai, Ed. Luna de Carvalho,  biólogo e entomólogo. Foi a minha última realização (1999),  o casco é oco, tem cavername e está à escala 1/192.





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sábado, 12 de setembro de 2009

Um hiate numa garrafa de Gordon's


O primeiro trabalho que aqui exponho foi realizado por volta de 1997 numa garrafa de Gordon e apresenta duas embarcações tradicionais portuguesas. A que está em primeiro plano é um Hiate de Setúbal, embarcação que após a sua extinção por volta dos anos 70 renasceu em 94. É um trabalho de uma fase em que ainda não considerava que a simples presença de um veleiro no interior do vidro de uma garrafa a enchia de mar.



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sexta-feira, 11 de setembro de 2009

O Hiate de Setúbal

O Hiate de Setúbal ou Hiate Português, é datado do século XVII, mas foi na segunda metade do Séc XIX, que se estereotipou esta forma de "hiate", facilmente identificável pelos seus dois mastros, o da frente (traquete) quase vertical, implantado muito avante, e o de trás (grande), a meio navio, inclinado 15 graus à ré. O gurupés, muito curto, era quase horizontal. As velas eram duas de carangueja e um estai. O casco era único, com as suas formas arcaicas de proa e de beque esculpido.
O Último exemplar do Hiate de Setubal, o "Estefânia", navegou até cerca de 1970 e hoje já nem se conseguem identificar alguns restos apodrecidos da mais típica embarcação do Sado. Com a intenção de dar às gerações futuras sabedoria e experiência, o Clube Naval Setubalense, com o apoio da Câmara Municipal de Setúbal, de algumas empresas e pessoas, entre elas o Engenheiro Henrique Cabeçadas, quiseram, em 1986, proceder à reconstrução de um Hiate de nome Santo António, cujo o casco estava enterrado, na costa do Sado, apodrecendo na lama. As dificuldade foram muitas, e como o casco não se encontrava em condições de uma recuperação, decidiu-se construir um Hiate de raiz .
Assim em Maio de 1993 o Mestre Jaime acompanhado por muitos homens, dispostos a trazer de volta um exemplar das mais belas navegações sadinas, levaram até ao estaleiro de Sarilhos Pequenos mais de 100 toneladas de madeira vinda de muitos cantos do país.
As suas dimensões eram as características:

• Comprimento fora a fora (comp. total): 15 a 19 metros
• Boca (largura máxima): 4,3 a 5,2 metros
• Pontal (altura do casco): 1,5 a 1,7 metros

A tarefa referida, difícil e dispendiosa, teve mesmo no final um pequeno grande precalço: ao colocar o mastro da frente, a madeira deste cedeu, devido a uma doença da madeira; não impedindo que se cumprisse a tradição de colocar debaixo do mastro principal 2 moedas com a data de construção do navio.
Foi a 9 de Julho de 1994, que o Mestre José Henriques de 94 anos,viu lançar ao mar, um Hiate igual aos de onde brincava em criança.

Adaptado de:
http://www.ensetubalense.com/seccao.php?op=hiatesetubal&mod=historia (acedido a 04.2008)

O lançamento de uma réplica do Hiate de Setúbal, Sarilhos Pequenos, 1994

 
 

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