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O NOSSO PROPÓSITO

O Capitão Haddock da banda desenhada do Tintin é uma boa caricatura de como se atribui a relação entre o mar e as garrafas ao alcoolismo dos marinheiros. No entanto a relação que mais nos interessa é a de que os marinheiros tinham com as garrafas já vazias. Tal como com o álcool, a atenção requerida pela introdução de modelos de veleiros no interior de garrafas -pelos seus gargalos- fazia-os evadirem-se da sua dura realidade. Ao contrário das fantasias de Baco o resultado desta outra relação era uma fantasia perdurável com um significado quase bíblico, o do buraco da agulha e do camelo.

O Mar das Garrafas será um espaço de divulgação de uma arte que, mais do que uma evasão, constitui um meio de trabalhar a persistência. Aqui apresentarei trabalhos já realizados, outros a realizar, trabalhos de outros, os resultados da minha pesquisa contínua sobre a história e as mútiplas envolvências desta arte, especialmente a das embarcações tradicionais.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A garrafa ex-voto de Buarcos

Um ex-voto é uma representação de algo que se considera ter sido alvo de um milagre salvador. O seu intuito é o do agradecimento à divindade pela graça recebida sendo colocado em capelas e igrejas. A forma do seu registo pode ser muito diversa,  pintura, escultura, fotografia, etc. e em Portugal abundam motivos relacionados com a doença, a guerra -sobretudo a colonial- e também com os naufrágios.

De facto a vida do mar foi (e ainda é) muito propensa à produção de ex-votos e a exposição realizada no Museu da Marinha de Maio a Setembro de 1983, intitulada "Primeira Exposição Nacional de Painéis Votivos do rio, do Mar e do Além-Mar", apresentou uma grande série de paineis pictóricos com embarcações sujeitas a situações de desastre, mas que, terão sido salvas por milagres.

Interrogando-me se uma embarcação no interior de uma garrafa não poderia ser também um registo votivo, acabei por ter uma resposta afirmativa através de uma série de visitas a capelas marítimas. Na Capela da N.ª Sr.ª da Encarnação em Buarcos, Portugal, o meu olhar descortinou quase imediatamente uma garrafa com um veleiro, provando que este tipo de arte também tinha um carácter votivo. Afinal que melhor modo de agradecer um milagre salvífico do que através daquilo que aos olhos dos outros é também uma forma de realizar o impossível?




Como se pode ver no filme é uma garrafa muito invulgar porque o veleiro surge solto no interior da garrafa sem qualquer suporte e com as obras vivas (a parte do casco que fica submersa). O grau de dificuldade deste tipo de trabalho é bastante superior porque a acção sobre a miniatura pode movê-la, impedindo a eficácia do contacto das duas partes da embarcação (obras mortas e obras vivas) e a elevação dos mastros.

A datação aproximada da embarcação é realizada pela bandeira -Monárquica Constitucional- e pelo tipo de casco, típico da segunda metade do séc. XIX e princípio do Séc. XX e, assim, pode dizer-se que é uma peça centenária uma vez que a República fará 100 anos em Outubro de 2010.

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