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O NOSSO PROPÓSITO

O Capitão Haddock da banda desenhada do Tintin é uma boa caricatura de como se atribui a relação entre o mar e as garrafas ao alcoolismo dos marinheiros. No entanto a relação que mais nos interessa é a de que os marinheiros tinham com as garrafas já vazias. Tal como com o álcool, a atenção requerida pela introdução de modelos de veleiros no interior de garrafas -pelos seus gargalos- fazia-os evadirem-se da sua dura realidade. Ao contrário das fantasias de Baco o resultado desta outra relação era uma fantasia perdurável com um significado quase bíblico, o do buraco da agulha e do camelo.

O Mar das Garrafas será um espaço de divulgação de uma arte que, mais do que uma evasão, constitui um meio de trabalhar a persistência. Aqui apresentarei trabalhos já realizados, outros a realizar, trabalhos de outros, os resultados da minha pesquisa contínua sobre a história e as mútiplas envolvências desta arte, especialmente a das embarcações tradicionais.

sábado, 20 de março de 2010

Meu amigo Samuel Corujo

Este texto foi escrito há 10 anos para a revista "Rose des Vents". Por qualquer razão nunca foi publicado, mas publico-o aqui hoje, retrovertendo-o para português, em memória de:


Meu amigo Samuel Corujo

(Adaptação do artigo de Artur Ramisote, « Ílhavense » , 15 de Abril de 1998)



O meu amigo Samuel Corujo, nascido a 15 de Fevereiro de 1922 na cidade marítima de Ílhavo, é hoje (2000), um dos raros homens do mar que continua a tradição ancestral da realização de barcos no interior de garrafas em Portugal.

Com 15 anos de idade, embarcou pela primeira vez numa embarcação da frota comercial, numa escuna de quatro mastros -a "Anfitrite"-, tendo viajado para as costas de África e da América.

Em 1941, precisamente no dia do seu 19.º aniversário, Samuel naufragou ao largo de Peniche a bordo do "Patriotismo"(primeira fotografia). Aí a sua mão direita ficou seriamente afectada para sempre (segunda fotografia).

Depois do serviço militar Samuel voltou ao mar, embarcando no "Alexandre Silva" que fazia carreira para os Estados Unidos da América. Neste país abandonou o barco e ficou como imigrante clandestino durante um ano, ao fim do qual foi repatriado.




















Em 1948, ano em que se casou, voltou de novo ao mar, mas desta vez para a pesca do bacalhau no Cabo Branco. Em 1966 naufragou pela segunda vez, agora no "Santa Mafalda" (terceira fotografia). À saída da Barra de Lisboa um problema no leme lançou o barco contra as rochas e, sobre uma grande tempestade, todos os seus tripulantes acabaram por ser salvos através de um cabo.




Nos dois naufrágios passou momentos dramáticos que nunca esquecerá.

Em 1976 Samuel reformou-se e foi então que, para combater a inactividade e o consequente isolamento, começou a consagrar o seu tempo à arte utilizada pelos seus velhos companheiros quando, no mar, as condições do tempo não deixavam pescar.

Foi um primo de Sintra, também marinheiro, que lhe transmitiu a herança da sua família já ligada à marinha. Depois de ter vencido as dificuldades tão comuns a quem ousa navegar por estes mares, sobretudo quando a sua mão direita estava afectada em consequência do seu primeiro naufrágio, Samuel continuava a herança dos homens do mar!





Em Portugal os seus trabalhos estão expostos no Museu da Marinha, Ministério dos Negócios Estrangeiros, Museu Marítimo de Ílhavo e mesmo nas salas de exposições da Presidência da República. Nos Estados Unidos da América os seus trabalhos estão no Museu Marítimo de S. Francisco e no Museu do Mar de Filadélfia.

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