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O NOSSO PROPÓSITO

O Capitão Haddock da banda desenhada do Tintin é uma boa caricatura de como se atribui a relação entre o mar e as garrafas ao alcoolismo dos marinheiros. No entanto a relação que mais nos interessa é a de que os marinheiros tinham com as garrafas já vazias. Tal como com o álcool, a atenção requerida pela introdução de modelos de veleiros no interior de garrafas -pelos seus gargalos- fazia-os evadirem-se da sua dura realidade. Ao contrário das fantasias de Baco o resultado desta outra relação era uma fantasia perdurável com um significado quase bíblico, o do buraco da agulha e do camelo.

O Mar das Garrafas será um espaço de divulgação de uma arte que, mais do que uma evasão, constitui um meio de trabalhar a persistência. Aqui apresentarei trabalhos já realizados, outros a realizar, trabalhos de outros, os resultados da minha pesquisa contínua sobre a história e as mútiplas envolvências desta arte, especialmente a das embarcações tradicionais.

domingo, 9 de maio de 2010

O "Mar" da Política: a Garrafa Liberal de Ílhavo

No Museu Marítimo de Ílhavo existe uma das mais belas peças que já vi e tenho pena que não esteja exposta ao público. Trata-se de uma garrafa alusiva ao processo revolucionário liberal português do Séc. XIX  e, em lugar de um veleiro, contém uma dobadoira onde se produz o fio branco, doirado e azul da bandeira constitucional. Além de figuras como tambores e bandeiras constitucionais surgem também canhões e, embora não se veja, penso que contém uma pena de escrita e um livro. A encimar esta dobadoira surge uma cruz. Esta garrafa não está datada, mas a invocação de canhões e tambores faz supor que tem a ver com a guerra civil entre Liberais e Absolutistas que decorreu entre 1828 e 1834.
A elegância e apuro de pormenor desta peça coloca -nos em consideração ter sido produzida por alguém de um elevado estatuto social, à semelhança das garrafas de Giovanni Biondo.



Peças como esta, albergando motivos diferentes de embarcações, aproximam-se das chamadas "Garrafas Mistério" ou "Garrafas do Impossível", mas  a sua intenção não é uma mera chamada de atenção para o impossível. A garrafa de Ílhavo pretende ser comemorativa e símbolo de um tempo em que o politicamente "impossível" conseguiu tornar-se possível!

1 comentário:

Anónimo disse...

A "garrafa liberal" de Ílhavo é um achado!
Não é possível saber ou calcular a data em que foi feita?
Tem graça também por ser aquela uma região bastante liberal durante as lutas das 1ª metade do século XIX.
Obrigada David por nos revelar estes fantásticos mistérios e segredos das garrafas.

Fátima Sá