sexta-feira, 25 de setembro de 2009
A Muleta do Tejo da Ana
Em 1986 realizei o meu primeiro modelo de uma das embarcações que mais me atrai, a incomparável Muleta do Seixal.
Embora convicto de que era um dos melhores mares que tinha pintado, com o tempo fui achando que esta garrafa merecia um modelo mais aprimorado. Hoje, passados 11 anos, já tenho um novo casco realizado à escala e preparado para ser completado com o aparelho. A Ana, no entanto, continua sem me perdoar o ter destruído este modelo que lhe oferecera para fazer um melhor!
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segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Perfil de um modelista náutico (sem garrafas), Lenine Rodrigues (por Anabela Oliveira)
É homem claro, directo, de sorriso tímido e simples. Fotografias não são muito com ele. Trabalho sim. Só aí se solta e se esquece da máquina fotográfica. Maquetista Naval, Lenine Rodrigues é um homem de artes. Usa o cinzel como usa o formão, o berbequim, como o pincel. O que for não importa. É arte, ele faz.
A sua relação com o Tejo vem desde que nasceu, numa travessa virada para o rio, há 62 anos, entre o casario do Barreiro. Desde cedo se habituou a ver passar fragatas, faluas, bateiras e catraios e desde pequeno se apaixonou por barcos à vela. “Ainda hoje, sou incapaz de ver passar um barco à vela e não parar, para o observar”, afirma Lenine Rodrigues, maquetista naval. Desde a madeira a metais nobres como a prata, este homem dedica-se a fazer réplicas dos barcos que sempre o encantaram. Teimosia, é uma das palavras que mais utiliza para definir a forma como consegue a perfeição dos seus trabalhos. Nós substituímo-la por persistência deste homem que fez o seu primeiro barco à vela ainda miúdo, de cascalheira, a casca castanha do pinheiro bravo, raspado sobre o cimento até lhe dar a forma que gostou de ver. Um pau e uma vela de papel, e corre a experimentar pô-lo a navegar na bacia de lavar as mãos. Foi com tristeza que viu o barquito adornar. Hoje sabe o motivo, que na altura não sabia: o mastro era excessivamente grande para o tamanho do barco. E foram precisamente os barcos à vela que se dedicou a reproduzir, à escala exacta, escolhida por si ou pelo cliente.
Entre França e Portugal
Em 1957 o pai imigra para França. Dois anos depois Lenine segue o mesmo caminho com a mãe. Se em Portugal já se tinha tornado aprendiz de carpinteiro, em França aprende o ofício de torneiro mecânico, trabalhando com “os três tornos: o vertical, o paralelo e o suspenso”. Chegou ao mais alto nível deste ofício, “era requisitado para trabalhar na França toda, inclusive na aeronáutica”. Entretanto, ao mesmo tempo, frequentava a escola ABC de Paris, uma “escola de artistas plásticos: desenho, pintura, desenho publicitário, tudo o que dizia respeito à arte”. Para onde ia levava o papel e os lápis. Fez o curso pelo amor que desde miúdo sentia pelas artes plásticas mas também porque lhe prometeram emprego no fim do estudo. A falência da firma que o empregaria veio a impossibilitar esse sonho e Lenine manteve o hobby a par com o seu ofício. Por motivos particulares, Lenine Rodrigues regressa a Portugal em 1976. Continua a ser torneiro mecânico e não tem dificuldades em obter trabalho mas a doença surge-lhe pela frente e viu-se impossibilitado de trabalhar durante 2 meses. Um pneumotorax impedia-o de fazer força. Disse para a mulher “é agora ou nunca”, referindo-se ao que até aí havia sido o seu hobby.
De auto didacta a maquetista naval
No início era um ilustre desconhecido que trabalhava para si mesmo. A oficina era dividida em duas partes, uma onde trabalhava como serralheiro, a outra onde dava azo à sua veia artística. Pintura, gravura, escultura, maquetismo, tudo lhe servia para se entreter. Um dia o seu hobby foi descoberto por dois amigos, um deles jornalista. Na semana seguinte um jornal do Barreiro falava de Lenine Rodrigues e do seu trabalho. Surgiram as primeiras encomendas para o núcleo naval do Museu de Almada e não parou mais.A tal persistência e perfeição no que faz levam-no a não descurar qualquer pormenor e até os que não se vêem depois de acabada a peça, estão lá. Quando lhe perguntam porquê, se no fim não são visíveis, ele responde “mas vejo eu!”. É assim que cada barco tem beliches e toda a minúcia que lhes compete e cada modelo que faz é construído no tipo de madeira utilizado no original.
Um desafio vencido
Em 1998 Lenine Rodrigues aceita o desafio que lhe é colocado pela Joalharia Torres: fazer 13 miniaturas em prata. Trabalhar em prata é totalmente diferente de trabalhar madeira. Habituado a fazer os seus modelos em cavername, tal qual eles são construídos em tamanho natural e também através da prática que na gíria se chama o “pão com manteiga”, técnica que não perde valor, a prata obriga-o a martelar e moldar sobre um cepo: acerta de um lado, foge do outro. Mas “venci o desafio”, diz. As treze peças foram entregues e posteriormente expostas no Centro Comercial Colombo.
Afinal, o que é preciso para se ser um bom maquetista naval? “Para já, tem de se gostar daquilo que se faz. Tem de saber minimamente ler desenho naval e depois é cumprir à regra tudo aquilo que vem nos desenhos”. Dito assim parece simples, ao contrário de quando se olha para uma peça ainda em construção. Outra coisa de que Lenine Rodrigues sente necessidade é de se informar sobre a história do barco que está a construir. Autodidacta, os conhecimentos de carpintaria e de torneiro mecânico foram-lhe sempre úteis. “Para se poder ser torneiro mecânico temos de saber ler desenho, embora seja desenho mecânico. Quando se sabe é fácil compreender o desenho naval”, diz rematando: “e depois fui-me informando”.
Pintura, escultura, modelos em prata ou madeira, ourivesaria, gravação em básculas de espingardas, a tudo ele se dedica, desde que possa dar azo à sua imaginação e à sua habilidade manual.
Modesto, o facto de ter peças espalhadas por vários locais públicos e colecções particulares, entre as quais se contam a do rei Juan Carlos de Espanha, em nada lhe mudou a maneira de ser. “Não posso dizer que não sinto orgulho, mas continuo a ser a mesma pessoa que era quando me iniciei”.
Afinal, o que é preciso para se ser um bom maquetista naval? “Para já, tem de se gostar daquilo que se faz. Tem de saber minimamente ler desenho naval e depois é cumprir à regra tudo aquilo que vem nos desenhos”. Dito assim parece simples, ao contrário de quando se olha para uma peça ainda em construção. Outra coisa de que Lenine Rodrigues sente necessidade é de se informar sobre a história do barco que está a construir. Autodidacta, os conhecimentos de carpintaria e de torneiro mecânico foram-lhe sempre úteis. “Para se poder ser torneiro mecânico temos de saber ler desenho, embora seja desenho mecânico. Quando se sabe é fácil compreender o desenho naval”, diz rematando: “e depois fui-me informando”.
Pintura, escultura, modelos em prata ou madeira, ourivesaria, gravação em básculas de espingardas, a tudo ele se dedica, desde que possa dar azo à sua imaginação e à sua habilidade manual.
Modesto, o facto de ter peças espalhadas por vários locais públicos e colecções particulares, entre as quais se contam a do rei Juan Carlos de Espanha, em nada lhe mudou a maneira de ser. “Não posso dizer que não sinto orgulho, mas continuo a ser a mesma pessoa que era quando me iniciei”.
Agradecemos a Anabela Oliveira a autorização para a reprodução do seu texto de:
Os barcos de prata de Lenine Rodrigues:
http://www.artbarreiro.com/artbarreiro1/lenine_files/2005/album/OsBarcosdoLenine/index.html
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Modelistas
O cutter piloto de Bristol
O meu colega e amigo Manuel viu o meu blog e disse-me que devia colocar um post em que mostrasse como se introduzia um veleiro pelo gargalo de uma garrafa. O filme que se segue destina-se a satisfazer o "incrédulo".
O "Marguerite", cutter (veleiro de um mastro) piloto do Canal de Bristol, foi realizado em 1992. Esta miniatura, a primeira que fiz sem pintura, foi realizada à escala, o casco é oco e tem cavername.
sábado, 19 de setembro de 2009
Muleta do Seixal
A muleta é uma das embarcações portuguesas de pesca mais interessantes. Já extinta, era construída na área do Seixal deslocava-se para o oceano junto a Cascais para pescar. A pesca era feita com uma rede de arrasto paralela ao casco, pois a muleta arrastava-a navegando de flanco. Para o poder fazer existiam velas à popa e à ré e tinha um casco côncavo que diminuía resistência à água. Para ter estabilidade usava esparrelas.
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sexta-feira, 18 de setembro de 2009
Celebre as Jornadas Europeias de Património com o Ecomuseu Municipal do Seixal
No Núcleo Naval de Arrentela (Seixal), dia 25 de Setembro, às 18.00 horas, participe na apresentação pública do livro A Muleta (Muleta é o nome da embarcação na garrafa do cabeçalho deste blog), uma edição conjunta com o Museu de Marinha, da autoria de Manuel Leitão, Ferdinando Oliveira Simões e António Marques da Silva (estes senhores são três grandes expoentes da arquitectura e modelismo naval tradicional português). A sessão constitui simultaneamente uma forma de assinalarmos localmente o Dia Mundial do Mar .
O livro A Muleta constitui um significativo contributo para a documentação, o estudo descritivo e a caracterização dos aspectos construtivos estruturais de uma embarcação que possui um enorme valor simbólico para as comunidades ribeirinhas do estuário do Tejo.
Não são miniaturas para garrafas, mas deve visitar-se com urgência, é muito inspirador!
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Modelismo
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
A garrafa ex-voto de Buarcos
Um ex-voto é uma representação de algo que se considera ter sido alvo de um milagre salvador. O seu intuito é o do agradecimento à divindade pela graça recebida sendo colocado em capelas e igrejas. A forma do seu registo pode ser muito diversa, pintura, escultura, fotografia, etc. e em Portugal abundam motivos relacionados com a doença, a guerra -sobretudo a colonial- e também com os naufrágios.
De facto a vida do mar foi (e ainda é) muito propensa à produção de ex-votos e a exposição realizada no Museu da Marinha de Maio a Setembro de 1983, intitulada "Primeira Exposição Nacional de Painéis Votivos do rio, do Mar e do Além-Mar", apresentou uma grande série de paineis pictóricos com embarcações sujeitas a situações de desastre, mas que, terão sido salvas por milagres.
Interrogando-me se uma embarcação no interior de uma garrafa não poderia ser também um registo votivo, acabei por ter uma resposta afirmativa através de uma série de visitas a capelas marítimas. Na Capela da N.ª Sr.ª da Encarnação em Buarcos, Portugal, o meu olhar descortinou quase imediatamente uma garrafa com um veleiro, provando que este tipo de arte também tinha um carácter votivo. Afinal que melhor modo de agradecer um milagre salvífico do que através daquilo que aos olhos dos outros é também uma forma de realizar o impossível?
Como se pode ver no filme é uma garrafa muito invulgar porque o veleiro surge solto no interior da garrafa sem qualquer suporte e com as obras vivas (a parte do casco que fica submersa). O grau de dificuldade deste tipo de trabalho é bastante superior porque a acção sobre a miniatura pode movê-la, impedindo a eficácia do contacto das duas partes da embarcação (obras mortas e obras vivas) e a elevação dos mastros.
A datação aproximada da embarcação é realizada pela bandeira -Monárquica Constitucional- e pelo tipo de casco, típico da segunda metade do séc. XIX e princípio do Séc. XX e, assim, pode dizer-se que é uma peça centenária uma vez que a República fará 100 anos em Outubro de 2010.
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