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O NOSSO PROPÓSITO

O Capitão Haddock da banda desenhada do Tintin é uma boa caricatura de como se atribui a relação entre o mar e as garrafas ao alcoolismo dos marinheiros. No entanto a relação que mais nos interessa é a de que os marinheiros tinham com as garrafas já vazias. Tal como com o álcool, a atenção requerida pela introdução de modelos de veleiros no interior de garrafas -pelos seus gargalos- fazia-os evadirem-se da sua dura realidade. Ao contrário das fantasias de Baco o resultado desta outra relação era uma fantasia perdurável com um significado quase bíblico, o do buraco da agulha e do camelo.

O Mar das Garrafas será um espaço de divulgação de uma arte que, mais do que uma evasão, constitui um meio de trabalhar a persistência. Aqui apresentarei trabalhos já realizados, outros a realizar, trabalhos de outros, os resultados da minha pesquisa contínua sobre a história e as mútiplas envolvências desta arte, especialmente a das embarcações tradicionais.

sexta-feira, 28 de março de 2014

"Mares" de Pablo Neruda III / Les "Mers" de Pablo Neruda III / Pablo Neruda "Seas" III



Pablo Neruda
Nobel Prize for Literature 1971
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Do livro "Confesso que vivi"

(...) Em minha casa fui reunindo brinquedos pequenos e grandes, sem os quais não podia viver. A criança que não brinca não é criança. Mas o homem que não brinca perdeu para sempre a criança que vivia nele e que lhe fará muita falta. Edifiquei minha casa também como um brinquedo e brinco nela da manhã à noite.
  

 Extrait du livre "Je confesse que j'ai vécu"

(...) Dans ma maison, j'ai réuni des petites et des grands jouets, sans qui je ne pourrais pas vivre. Un enfant qui ne joue pas n'est pas un enfant. Mais l'homme qui ne joue pas a perdu pour toujours l'enfant qui vivait en lui et qu'il va beaucoup lui manquer. J'ai construit ma maison ainsi que d'un jouet et je joue lá du matin au soir.



From the book "I confess that I lived"
 

(...) In my house I was bringing together small and large toys, without whom I could not live. A child who does not play is not a child. But the man who does not play has lost forever the child who lived in him and that he will be deeply missed. I built my house as well as a toy and I play it from morning to night.

Os barcos em garrafa numa das janelas do pavilhhão da casa da Isla Negra

O pavilhão dos barcos em garrafa da casa da Isla Negra

São meus próprios brinquedos. Juntei-os através de toda a minha vida com o propósito de me entreter sozinho. Vou descrevê-los para as crianças pequenas e para as de todas as idades.


Ils sont mes propres jouets. Je les ai tous réunis  dans le but de me divertir. Je vais les décrire pour les petits enfants et pour ceux de tous les âges.


They are my own toys. I joined them all through my life with the purpose of entertaining myself. I'll describe them for small children and for those of all ages.


 



Tenho um barco veleiro dentro de uma garrafa. Para dizer a verdade, tenho mais de um. É uma verdadeira frota, com seus nomes escritos, seus mastros, suas velas, suas proas e suas âncoras. Alguns vêm de longe, de outros mares minúsculos. Um dos mais belos me foi mandado da Espanha em pagamento de direitos autorais de um livro de minhas Odes. No alto, no mastro maior, está nossa bandeira com sua solitária e pequena estrela. Mas quase todos os outros são feitos pelo senhor Carlos Hollander. O senhor Hollander é um velho marinheiro que reproduziu para mim muitos daqueles barcos famosos e majestosos que vinham de Hamburgo, de Salem ou da costa bretã para carregar salitre ou para caçar baleias pelos mares do sul.


J'ai un voilier dans une bouteille. Pour dire la vérité j'ai plus d'un. C'est une véritable flotte, avec leurs noms écrits, ses mâts, les voiles, leurs proues et leurs ancres. Certains viennent de loin, d'autres mers minuscules. Un des plus beaux on m'a envoyé de l'Espagne dans le paiement du droit d'auteur sur un livre de mes Odes. Dans le haut, dans le plus haut mât est notre drapeau avec son petite étoile solitaire. Mais presque tous les autres sont faites par Monsieur Charles Hollander. Monsieur Hollander est un vieux marin qui a fait pour moi beaucoup de ces bateaux célèbres et majestueuses qui venaient d' Hambourg, Salem ou de la côte bretonne, pour charger salitre ou pour de chasser les baleines dans les mers du Sud.


I have a sailing ship in a bottle. To tell the truth, I have more than one. It's a real fleet, with their names written, its masts, their sails, their bows and their anchors. Some of them come from far, other tiny seas. One of the most beautiful It was sent to me from Spain in payment of a book of my Odes copyright. At the top, the highest mast is our flag with its lone and little star. But almost all the others are made by Don Carlos Hollander. Mr. Hollander is an old sailor who made for me many of those famous and majestic ships that came from Hamburg, Salem or the Breton coast to carry saltpeter or to hunt whales for the South Seas.

Don Carlos Hollander Schültz
  
Ao descer o longo caminho do Chile para encontrar, em Coronel, o velho marinheiro, entre o cheiro de carvão e chuva da cidade sulista, entro na verdade no menor estaleiro do mundo. Na salinha, na sala de jantar, na cozinha, no jardim, acumulavam-se e se alinhavam os elementos que serão colocados nas claras garrafas, das quais o pisco se foi. Dom Carlos toca com seu sopro mágico proas e velas, traquetes e gáveas. Até a menor fumaça do porto passa por suas mãos e se converte numa criação,em um novo barco engarrafado, completo e radiante, pronto para o mar quimérico.


En descendant le long chemin du Chili, j'ai trouvé dans la ville de Coronel, le vieux marin, entre l'odeur du charbon de bois et la pluie de la ville méridionale. En fait, je rentre dans le chantier naval plus petit du monde. Dans le salon, la salle à manger, la cuisine, le jardin, sont empilés et alignés les éléments qui seront placés dans des bouteilles claires, des quelles le pisco (vin du Chile) est parti. Don Carlos joue avec sa magie la proue et les voiles, huniers et traquetes. Même la plus petite fumée des ports passe par leurs mains et devient une création, un nouveau bateau en bouteille, pleine et radieuse, prêt pour la mer chimérique


When I went down the long road of Chile I found in the city of Coronel the old sailor, in the smell of coal and rain of this southern city. In fact I enter in the smaller yard of the world. In the sitting room, the dining room, the kitchen, the garden, were accumulated and lined up the elements that will be placed in clear bottles, of whom pisco (chili wine) is gone. Don Carlos plays with their magic, the prows sails, topsails and traquetes. Even the smallest port smoke passes through their hands and becomes a creation, a new ship in bottle, full and radiant ship, ready for the chimeric sea.





Em minha coleção sobressaem, entre os outros barcos comprados em Amberes ou Marselha, os que saíram das modestas mãos do navegante de Coronel. Porque não só ele lhes deu vida como também os ilustrou com a sua sabedoria, colando-lhes uma etiqueta que conta o nome e o número das proezas do modelo, as viagens que manteve contra vento e maré, as mercadorias que distribuiu pelo Pacífico com seus velames que já não veremos mais.
Tenho barcos engarrafados tão famosos como a poderosa Potosí e a magna Prússia, de Hamburgo, que naufragou no Canal da Mancha em 1910. Mestre Hollander me deleitou também fazendo para mim duas versões da Maria Celeste que, desde 1882, se converteu em estrela, em mistério dos mistérios.


Dans ma collection, entre autres bateaux achetés à Anvers ou Marseille, sont perceptibles ceux qui ont fait par de modestes mains du marin de la cité de Coronel. Parce que non seulement il leur a donné sa vie comme leur a également illustré avec sa sagesse, en les collant une étiquette portant le nom et le nombre des réalisations du bateau, les voyages qui a maintenu contre vents et marées, les biens distribués par le Pacifique, avec leurs voiles qui nous ne nous verrons pas plus.

Il a  fait des bateaux en bouteilles aussi célèbres que le puissant Potosí et la magna Prusse, d' Hambourg, qui a coulé dans la Manche en 1910. Maître Hollander m'a enchanté aussi de me faire deux versions de la Mary Celeste, qui depuis 1882, devenue une star, le mystère des mystères.


In my collection among other ships purchased in Antwerp or Marseille, can be distinguished those who have made by the modest hands of the Coronel city sailor. He not only gave life in this bottles as also illustrated them with your knowledge by pasting them with a label that has the name and number of the achievements of the ship the trips he made from winds and tides, the merchandise distributed by the Pacific with its sails that we no longer will see more.

I have bottled ships as famous as the powerful Potosí and the magna Prussia, of Hamburg, which sank in the English Channel in 1910. Master Hollander delighted me also making two versions of the Mary Celeste who, since 1882, became a star in the mystery of mysteries.




 
   

Não estou disposto a revelar o segredo navegatório que vive em sua própria transparência. Trata-se de como entraram os minúsculos barcos em suas garrafas ternas. Eu, enganador profissional, com o objetivo de mistificar, descrevi minuciosamente em uma ode o enorme e mínimo trabalho dos misteriosos construtores e contei como entravam e saíam das garrafas marinheiras. Mas o segredo continua.


Je ne suis pas disposé à révéler le secret de la navigation qui habite sa propre transparence. Comment mettre des bateaux minuscules sur leurs bouteilles? Moi, professionnel trompeuse, avec l'objectif de mystifier, j'ai décrit en détail dans une ode le grand et minimum travail des misterieux constructeurs et j'ai dit comme les marins allaient et venaient de leurs bouteilles. Mais le secret continue.


Me, I'm not willing to reveal the secret of navigation that lives in its own transparency. How can someone to put tiny boats in bottles? Me, professional misleading, in order to mystify, I described in detail in an ode the huge and minimum work of the mysterious builders and i told you how the sailors came in and out in bottles. But the secret continues.


 




Os barcos em garrafas quando ainda não estavam no pavilhão da casa da Isla Negra
Foto de  Milton Rogovin, 1967 (clique para ver o perfil deste fotógrafo social)


Agradeço a Claudia Wasilewski a gentileza da permissão para a publicação deste texto.
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